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Mosteiro de Coz, a joia esquecida
Suse Monteiro

Passear pela zona de Alcobaça e não visitar o Mosteiro de Santa Maria de Coz devia dar direito a multa. Aceder ao convento feminino cisterciense é toda uma odisseia, mas garantimos que vale a pena o esforço

21 Setembro, 2018

Mosteiro de Coz, a joia esquecida

Tudo começa com a receção peculiar, instalada na antiga adega do Mosteiro, no espaço do projeto Coz’Art. Bilheteiras? Isso é coisa de meninos. Não é preciso bilhete para entrar, mas são precisas chaves para abrir a porta do monumento. O nosso "porteiro" veste também o papel de guia para dar a conhecer o ex-libris de Coz. Sim, que isto não é só abrir a porta e ir à sua vida. Os visitantes têm direito a uma visita guiada e, com sorte, ficam a conhecer alguns dos segredos que aquelas paredes escondem. Para evitar bater com o nariz na porta, não escolha as segundas-feiras nem os domingos de manhã para visitar o Mosteiro de Coz.

Ao aproximarmo-nos da fachada robusta, com um ar austero e em grande parte destruída, reparamos com mais atenção no contraste perfeito dos canteiros de rosas delicadas que a contornam. Do lado de fora ninguém imagina aquilo que o espera no interior.

Mandado construir pelo abade do Mosteiro de Alcobaça, D. Fernando, ao cumprir uma cláusula do testamento do rei D. Sancho II, o Mosteiro de Coz foi um dos mais ricos mosteiros femininos da Ordem de Cister, conhecido pelos doces conventuais que as monjas lá confecionavam. Assim que passar as primeiras portas, prepare-se para abrir a boca de admiração.

Luzes acesas e eis que a grandeza da nave única, que se desenvolve entre o coro e a capela-mor, nos tira a respiração. Neste autêntico “santuário do Barroco” não há um único elemento onde o nosso olhar descanse, sem ser arrebatado por todos os detalhes, desde os painéis de azulejos em perfeitas condições, à imponente talha dourada ou a abóbada com os seus 80 caixotões de madeira da abóbada que representam temas iconográficos típicos da espiritualidade católica. Este é, aliás, um mosteiro que integra a Rota das Abadias Cistercienses.. 

O coro das monjas, na igreja abacial, conta com um belíssimo portal manuelino de fundo e um cadeiral executado no final do século XVII. Nos painés de azulejo da sacristia podem ser vistas cenas da vida de Bernardo de Claraval, considerado o maior impulsionador da Ordem de Cister. Abuse das fotografias, mas perca-se nas imagens que encontra mesmo em frente aos seus olhos, para lá da lente. Aprecie, com calma, as pinturas da autoria de Pedro Peixoto e de Josefa de Óbidos.

A Igreja é dividida a meio por uma grade de clausura em talha dourada de modo a separar o coro da igreja dos fiéis, que até um leigo em arquitetura consegue parar para apreciar a sua beleza. Observe com atenção o conjunto de altares em talha dourada, do final do século XVII, a balaustrada e o "soberbo retábulo do altar-mor".

Um detalhe interessante é que em algumas estátuas podem ser vistos alguns elementos importantes para a região que perduram no tempo, desde há séculos, como é o caso da conhecida Maçã de Alcobaça...

Eurico Leonardo, o nosso guia, confidencia-nos que o silêncio é aquilo que mais aprecia no convento. Por isso faça esse exercício, perca (ou ganhe) um minutinho em silêncio naquele espaço, que ao contrário do “peso” de todos os elementos que o compõe, é leve, agradável e até terapêutico.

Para os mais devotos, o Mosteiro abre as portas para a missa aos domingos de manhã. Diz que há até duas senhoras da aldeia que o visitam para o seu momento de oração “religiosamente” todos os dias. Eurico Leonardo conta-nos ainda que também por lá se fazem batizados e casamentos, sendo que o próximo casório é de uma lisboeta que há uns anos visitou o Mosteiro e disse: “Um dia ainda hei-de casar aqui”. E não é que vai casar lá mesmo?​

No final da visita pode ainda dar uns dedos de conversa em inglês com o rapaz, natural do Quénia, que veste roupas coloridas e usa turbante na cabeça, e que pasme-se... faz cestos de junco. É no espaço do Coz’Art que Titus Irura trabalha. O queniano mudou-se para esta aldeia por amor, num romantismo que até faz lembrar os filmes. Com uma boa-disposição e tranquilidade contagiantes, apostamos que vai ter muitas perguntas a alguém tão carismático e com uma filosofia de vida tão encantadora. Deixem que ele vos conte a sua história com o seu ar bem-disposto e o seu tom de voz baixo. Mais uma vez, prometemos que não se vão arrepender.

Na hora de ir embora, não há outra forma de deixar Coz que não seja com uma bagagem mais rica. E sem precisar de gastar um cêntimo, já que nenhuma destas atividades é paga… a menos, claro, que queira comprar um dos cestos de junco, muito tradicional naquela aldeia. Se for guloso, aconselhamos ainda que prove o Pão-de-ló de Coz e se a gula for muita, leve um ou mais para casa para dar a provar àquele familiar ou amigo que nem sabe da existência de Coz. Pode ser que numa próxima viagem o retribuam... 

Mosteiro de Coz

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