Somos terra de paixão

Somos terra de paixão
Diana Nicolau, Atriz

Não vou mentir. Não foi fácil dar à luz esta crónica. Estou a começar a escrevê-la e nem sei muito bem o que vai sair daqui. Gosto muito de escrever, e talvez por escrever de vez em quando para o público, tenha surgido este convite do Região de Cister para escrever mensalmente para vós, leitores da Bússola. Isso, e claro, o facto de ser uma filha da terra. A Terra de Paixão. Com muito orgulho.

Sempre que comento entre os meus pares e pessoas com quem me cruzo pelo mundo fora, que sou de Portugal, faço questão de dizer que sou de Alcobaça. E há sempre uma ou outra alminha que pergunta: “Ah, Leiria não é?”; e depois de um bom arregalar de olhos da minha parte, e um esclarecimento geográfico, todos ficam a saber que Alcobaça não é Leiria. Nada contra, malta de Leiria, vocês ganham-nos no pinhal e são capital do distrito. Mas nós somos... Alcobaça! Somos Carnaval. Somos maçãs. Somos Ginja, (Óbidos, desculpem lá, fiquem com os livros e o chocolate, mas a ginja melhor é a nossa!). Somos Terra de Paixão. Um bocadinho azeiteiro este título, mas se pensarmos bem, encaixa-nos que nem uma luva. Coimbra gaba-se de ter a melhor tragédia romântica do século, mas a apoteose dessa história está onde? No nosso Mosteiro! Raramente conheço alguém a dizer de peito cheio, e com tanto orgulho de onde é, como encontro os meus conterrâneos alcobacenses. Nós batemo-nos durante horas a tentar explicar o nosso Carnaval (mas sempre sem sucesso porque não se explica, vive-se!). E ai de quem nos venha comparar aos cabeçudos de Torres. Aí, cai o Carmo e a Trindade, ou fazendo jus ao que é nosso, cai o Mosteiro e o Castelo. (Se bem que este último não tem muito mais de pé para cair.) E agora percebo que não era nada disto que tinha previsto escrever. Este mês ia falar de cultura, de teatro e do estado apocalíptico em que está o mundo. E tudo isto porque acabei de vir do teatro, onde vi um espectáculo que falava sobre o que andamos para aqui a fazer nesta vida. Depois das revoluções, das histórias de amor, das guerras e das descobertas científicas, o que nos resta? E enquanto assistia ao espectáculo, eu fazia mentalmente uma lista de coisas que quero fazer em Alcobaça no próximo fim-de-semana:

- Ir à fruta à Cooperativa;
- Comer uma Pizza na Rotunda;
- Dar um Abraço ao Antero e comprar botões;
- Pedir desculpa ao Hélder do talho, porque virei vegetariana;
- Ir passear a cadela da vizinha;
- Ver o Mosteiro de uma ponta à outra;
- Ir ao Books & Movies (o festival literário e cinematográfico que decorre até 14 de Outubro e tem uma programação de fazer inveja aos cabeçudos do lado!); 
- Festejar o aniversário do Paulinho na Cela e ver a bebé da Pi;
- Comer do bom e do melhor na casa dos meus pais;

... e passear pela cidade que me carrega baterias, e deixa tanta gente invejosa quando digo que vou à terra no fim de semana buscar fruta e pão do bom. Que aqui na capital ninguém sabe o que isso é. E afinal, uma crónica que ia ser sobre tudo menos isto, terminou assim. Viva Alcobaça!

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