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Iguarias de luxo em Cistermúsica gourmet
José Alberto Vasco

A appassionata e appassionante Young-Choon Park e a concretização do sonho em ver Kronos Quartet em Alcobaça. Tudo graças ao Cistermúsica

15 Julho, 2019

Iguarias de luxo em Cistermúsica gourmet

Sempre tem sido significativa na consolidação de um festival de música a contratação de artistas estrangeiros prestigiados para a sua programação. Não apenas por essa evidência mas, acima de tudo, pela segurança e garantia que tal opção geralmente acarreta em termos de qualidade.

Recordo o atribulado pioneirismo dos primeiros anos do Cistermúsica, em que o seu inquestionável fundador e seu primeiro diretor artístico, Daniel Figueiredo, teve de se defrontar quase ingloriamente com orçamentos exíguos, facilmente desmotivadores, quando, por exemplo, a poucos quilómetros de Alcobaça se realizava um prestigiadíssimo Festival de Música de Leiria, que o exponencial Paul Griffiths chegou a qualificar no New York Times como um dos dois melhores festivais do género na Europa. Esse deprimente e desonroso enquadramento começaria a alterar-se na nona edição do festival, em 2001, quando a sua direção artistica foi assumida pelo músico alcobacense Rui Morais, honrando então o evento com um concerto inaugural estrelado pelo qualificado e convincente Hilliard Ensemble.

No ano seguinte, seria dado o passo decisivo na credenciação do Cistermúsica, com a Academia de Música de Alcobaça a surgir como sua co-organizadora e Rui Morais como seu diretor executivo, tendo também, e seguindo a sugestão de um influente jornalista local, a sua direção artística sido confiada ao fluente e sabedor violetista e compositor Alexandre Delgado. A partir de então, não é segredo para ninguém que o Cistermúsica, trilhou o percurso de, além de se ter alcandorado a mais importante evento da cultura local, ter também ascendido à elite dos melhores festivais de música culta nacionais. Os artistas e agrupamentos internacionais de primeira grandeza que nestes últimos anos têm engrandecido a programação do festival já não se conseguem contar pelos dedos de duas mãos e, nesta sua edição de 2019, mais dois se juntaram a esse valioso conjunto de vultos da música internacional, sendo essa a motivação essencial deste meu texto crítico: o universalmente aclamado Kronos Quartet e a reluzente pianista coreana Young-Choon Park.

Young-Choon Park, literalmente appassionata

O eloquente recital da fulgurante pianista coreana Young-Chon Park na quinta-feira, 11 de julho, teve o especial condão de confirmar a extrema virtude da seleção pianística que a sapiente direção artística de Alexandre Delgado tem conseguido em tempos de contenção financeira. O inesquecível recital da assombrosa pianista russa Yulianna Avdeeva no Cistermúsica 2013 é para mim a prova mais concludente desse facto. O único entrave a essa escolha tem sido a realização desses recitais no belíssimo Claustro D. Dinis do Mosteiro de Alcobaça, o que, infelizmente, tem causado alguns transtornos. E neste âmbito recordo a segunda parte do excelentíssimo recital de António Rosado no Cistermúsica 2014, em que a sua cuidada e primorosa interpretação dos Prelúdios de Debussy foi inesperadamente afrontada pela catastrófica sonoridade de uma rasquíssima banda de música popular que á mesma hora atuava num dos bares da contígua Praça 25 de Abril.

Young-Choon Park parecia alardear alguma apreensão no início deste seu recital, suspeitando provavelmente que a sua atuação neste Cistermúsica se iria confrontar com o imprevisto assalto de uns inesperados passarões noturnos, que na melhor tradição hitchkockiana se lembraram de tentar boicotar sonoramente a sua atuação. A pianista coreana acabou por contornar sabiamente essa súbita afronta, fazendo também recordar essa especial particularidade de os músicos asiáticos conhecerem normalmente de cor as partituras da música que tocam.  Iniciou a sua virtuosa e nobilíssima atuação por uma das mais emblemáticas sonatas clássicas do incontornável Mozart, a nº 11 em lá maior, K. 331, e o mínimo que se poderá dizer é que o fez de um modo irrepreensível, deixando no ar a ideia da virtude que se iria seguir. E aí, atingiu-se completamente o clímax logo no primeiro andamento de uma avassaladora interpretação de outra representativa e popular sonata, agora do romântico Beethoven, a famosa nº 23 em fá menor op. 57, justamente epitetizada de “Appassionata”. E esse será o termo exato para definir esta inspiradora e muito bem conseguida interpretação de Young-Choon Park, personalizada e literalmente appassionata e appassionante, tocando tudo lá em cima,  como se costuma dizer no rock, e entusiasmando um público que não lhe regateou paixão, aplausos e bravos!

O concerto estava ganho, o público conquistado e a pianista motivada para uma muito aguardada segunda parte, em que teria de superar essa prova de fogo que serão sempre as composições pianísticas do eterno Chopin. Young-Choon Park passeou a sua apaixonada arte e a sua iniludível técnica através de dois Scherzos, duas Valsas, uma balada e quatro Mazurkas representativas do ilustre pianismo do genial Chopin, mandando quem assistia claramente ao tapete, num paradisíaco K.O., a que nenhum dos espetadores presentes conseguiu resistir, consciente do fantástico recital que acabara de presenciar. Muitérrimo bomzérrimo!, como muitas vezes digo e raramente escrevo.

 Kronos Quartet, a concretização de um sonho

Ainda sou de um tempo em que Portugal era um país estúpida e desoladoramente fechado à criação e exibição artística livres e libertas e em que assistir a um concerto ao vivo neste país de qualquer artista ou agrupamento de nível mundial de que gostássemos era apenas uma hipótese absolutamente quimérica. E, transportando esse facto para Alcobaça, o enquadramento piorava para ainda muito pior. A situação alterou-se com o 25 de Abril e as novas e profundas possibilidades que a todos nós criou e a verdade é que toda essa ambiência melhorou, nomeadamente na cidade onde nasci e onde quase praticamente sempre vivi, onde a situação se modificou no melhor sentido, recordando com toda a justiça a já algo e infelizmente distante época em que o nosso Cine-teatro se tornou sala de referência a nível nacional. Contudo, a possibilidade de algum dia poder assistir a um concerto do proeminente Kronos Quartet na minha santa terrinha era mesmo um sonho. Até ao dia em que soube que eles iriam atuar em Alcobaça, no Cistermúsica 2019. Uau!

Essa aura de felicidade concretizou-se soberbamente na recente noite de 9 de julho, conduzindo ao auditório da Cerca do Mosteiro numeroso, conhecedor e interessado público, pois o facto de existir essa apetência para a música culta contemporânea é  uma verdade mais que comprovada, quase científica. Num ano em que o principal mote da direção artística do festival é “dar alguns dos melhores exemplos de como pode ser ténue a fronteira entre erudito-e-popular", foi essa a sua opção na encomenda ao renomadíssimo quarteto de cordas norte-americano para esta sua muito aguardada estreia em Alcobaça. Num programa em que os temas interpretados se dividiam entre os efetivamente escritos para o Kronos Quartet e outros de origem alheia submetidos a arranjos de Jacob Garchik, o concerto iniciou-se com a entusiamante Zaghata, de autoria do pianista egípcio Islam Chipsy, com o Kronos Quartet a explicar claramente ao que vinha: seduzir o público com a maior transcentralidade musical possível. E fê-lo muito bem, partindo seguidamente para uma eterno clássico da tradição musical norte-americana, o multifacetado e multiinterpretado The House of The Rising Sun, num desempenho interpretativo absolutamente normal neste âmbito, abrindo caminho para o primeiro grande momento da noite, elevando mais uma vez bem alto a parceria de muitos anos entre o Kronos Quartet e o compositor contemporâneo Philip Glass, com um seu Quartet Staz que quase automaticamente alcandorou o concerto à zona de eleição que poucas vezes deixou de lado. Logo a seguir, um belo e insinuante regresso a sonoridades de matriz oriental, com o quarteto de cordas a transformar-se quase completamente em quarteto de percussão, dando a ouvir uma sedutora interpretação de Ya Mun Dakhat Bahr Al-Hawa, da compositora iemenita Fatimah Al-Zaelaeyah.

O concerto continuou em grande plano, com a sensível e enleante My Desert, My Rose, da compositora sérvia Aleksandra Vrebalov, a que se seguiu outro dos grandes momentos da noite, com o Kronos Quartet a passear a sua arte interpretativa através da imagética e tecnicamente favorecida Clouded Yellow, do compositor norte-americano Michael Gordon. Daí seguiu-se para uma das interpretações menos convincentes deste concerto do Kronos Quartet no Cistermúsica 2019, voltando à música do seu país, desta vez vez através do hiper-presente Summertime, de George Gershwin, numa versão algo pobre, quase literalmente transcrita da originalmente gravada por Janis Joplin com a banda Big Brother & The Holding Company. Novos momentos de enorme intensidade se seguiriam neste emocionante concerto, com a interpretação consecutiva de Strange Fruit, de Abel Meeropol, eternizada pela voz e pelo cantar da inimitável Billie Holiday, e do coltraneano Alabama, do não menos inimitável John Coltrane, evidenciando superiormente a similaridade artística entre dois dos maiores génios da música negra norte-americana.

O concerto encaminhava-se para um final de eleição, e o primeiro sinal nesse sentido foi uma composição de autoria de outra conceituada e habitual parceira criativa do Kronos Quartet, Laurie Anderson, cuja Flow, apesar da sua brevidade, não deixou de libertar uma auréola de ilustre criatividade. Seguiu-se outra das pérolas da noite, a desafiadora e enérgica Another Living Soul, evolutiva demonstração da mulifacetada arte compositiva da canadiana Nicole Lizée. E este tão aguardado e não menos memorável concerto do Kronos Quartet em Alcobaça atingiu o seu final e o seu clímax na sublime e inspiradora interpretação da sua peça final, One Earth, One People, One Love, elemento chave na monumental Sun Rings, encomendada pela NASA ao Kronos Quartet, a partir da recolha de sons do espaço sideral, efetuada durante muitos anos por algumas das suas naves espaciais. A sua conceção compositiva foi entregue pelo Kronos Quartet a outro dos seminais compositores contemporâneos habitualmente seus parceiros criativos: o douto e peculiar Terry Riley. Perdoem-me o apêndice de aqui referir o facto pessoal de esta ser a peça cuja interpretação mais aguardava neste concerto, dado o facto de ter feito referência a essa insigne criação de Terry Riley com o Kronos Quartet nas páginas nº 76, 77 e 78 do último capítulo da segunda edição, revista e atualizada, do meu ensaio Música & Água/ Evolução Provável de um Relacionamento Físico & Espiritual (Porto, Papiro Editora, 2006), caso único na literatura musical portuguesa.

A noite estava também ganha para mim, tal como para o Cistermúsica 2019,  mas o Kronos Quartet não se foi embora sem presentear o seu público com um simpático e amistoso encore, em que nos fez vibrar com um épico tema do folclore norte-americano e uma não menos épica composição do não menos inesquecível Carlos Paredes, os seus eternos e sempre jovens Verdes Anos. Uau! Palmas de pé e durante largos minutos para um concerto que trouxe a Alcobaça da melhor música que se compõe e interpreta neste tempos de vasta glória criativa. Viva!

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