Nós na Televisão

Nós na Televisão
Rui Caria, Fotojornalista

Pensamos que é a televisão faminta de audiências, mas são as pessoas, famintas de televisão, que sim; é faminta de audiências, é verdade.

Neste circuito fechado cabem todos os orgãos de comunicação e quase todas as pessoas. Mas prefiro centrar-me na televisão que sempre tem uma aparência mais gratuita.

Acho interessante, no sentido do espanto, a indignação dos que vêem programas, notícias ou gente de que não gostam na televisão; São os novos indignados. Os indignados de televisão ligada nos canais que repudiam a verem a notícia os programas ou as pessoas que repudiam.

É de repudiar quando aparece, é certo. Mas mais fácil do que ficar a ver, é desligar o aparelho e ficar livre do papão da TV, para que a própria TV se vá libertando do papão que é? Dizer que a televisão nos entra em casa sem pedirmos, é um utilitarismo gasto. Ninguém nos entra em casa se não deixarmos.

Nenhuma estação de televisão que conheço deixa ficar no ar algo que não resulte em audiências massivas. Tudo é medido ao segundo e em tempo real. Cada frame é escrutinado pela máquina. Não vemos mais a televisão do que ela nos vê a nós.

Antes de nos queixarmos dos idiotas na TV, deveríamos primeiro pensar se não somos nós os idiotas que a TV vê e por isso reflecte.

Somos obsidiados pelo nosso próprio reflexo no aparelho. As nossas queixas nunca farão sentido enquanto a pantalha der a nossa imagem. Quem está na TV somos nós, o aparelho é só mais um espelho lá em casa e quando deixarmos de olhar tanto para ele, também seremos menos vistos, e talvez assim, ajudemos a criar uma televisão, um jornal, uma revista, com um pensamento mais limpo, inteligente e onde a qualidade volte a florescer. Assim, no futuro talvez possamos ter um espelho que saiba reflectir pessoas melhores; nós.

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