Letras
O pedido de Virgínia a Salazar
Joaquim Paulo

Por estes dias, Alcobaça presta homenagem aos 50 anos da morte de Virgínia Victorino. Numa carta escrita a Oliveira Salazar, a poetisa procurou influenciar a nomeação do sucessor de António Ferro à frente da Emissora Nacional. Os seus intentos eram claros: queria dirigir o teatro radiofónico a seu bel-prazer.

21 Setembro, 2018

O pedido de Virgínia a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Carta de Virgínia Victorino a Salazar

Virgínia Victorino

Virgínia Victorino

É datada de 28 de fevereiro de 1946, foi escrita na sua casa de Lisboa, e tem inscrita a palavra "Confidencial". Dirigida ao "ilustre Presidente do Conselho", a missiva de Virgínia Victorino a Salazar tinha apenas um fim: influenciar o regime e, com isso, ter "liberdade" para colaborar artisticamente da maneira que considerava adequada com a rádio do Estado.

Em causa estava o processo de substituição de António Ferro na direção da Emissora Nacional. Os afazeres do criador da chamada "Política do Espírito" do Estado Novo no Secretariado da Propaganda Nacional tiravam-lhe tempo para dirigir a rádio de forma conveniente e a sucessão preocupava a poetisa, que escreve a Salazar recordando o encontro que ambos tiveram em casa do presidente do Conselho e em que o assunto tinha vindo à baila.

Virgínia, que já tinha sido agraciada com duas comendas pela ditadura, vai direta ao assunto: além dos nomes já discutidos de Henrique Galvão e Luiz Vieira de Castro, ela gostaria de "alvitrar mais um" nome para suceder a António Ferro. Trata-se de Álvaro Afonso dos Santos, "rapaz muito digno, muito sério, com uma vasta cultura artística e de convicções políticas que não oferecem a mínima dúvida". "Apesar de militar, encontra-se na reserva, o que lhe permitiria dedicar ao cargo a atenção e a assistência que ele requere. E também primorosamente educado, tem excelente apresentação, fala várias línguas e não confunde Beethoven com Rui Coelho nem Camões com Mário Marques...", escreve a alcobacense, escarnecendo de quem manda, então, na Emissora Nacional. E além de todas as características pessoais do militar que recomenda ao ditador, Virgínia Victorino destaca, ainda, uma outra: "a de ser absolutamente fiel à situação".

A dramaturga faz um retrato negro da estação, salientando que carecia de uma "solução urgente". "As injustiças sucedem-se, as prepotências, os favoritismos também. Não há mão segura, nem critério, nem orientação capazes de manter em quem trabalha, o entusiasmo indispensável. Campeia o mau gosto, a monotonia, acarinha-se a mediocridade, facilita-se a uns o que a outros se nega terminantemente", escrevia. Virgínia vai mais longe e sublinha: "aquilo preciso de arranjo!"

A carta de Virgínia denota uma grande proximidade entre ambos, o que leva, de resto, a autora esclarecer: "Não entra neste desabafo qualquer nervosismo de mulher, mas, Senhor Presidente, na Emissora Nacional é preciso alguém que esteja, que sinta, que oiça, que acompanhe os que desejam servir e servem, não servindo melhor porque a incompreensão de alguns finge desconhecer e aniquila, portanto, o esforço de muitos. Quem dirige, na realidade, o Senhor Silva Dias, que terá, possivelmente, qualidades políticas. Mas essas não bastam para o organismo especial de que se trata. Estava certo que dirigisse, artisticamente, se para isso tivesse o comportamento e a cultura necessárias, o bom gosto bastante para distinguir, por si próprio, o que é bom do que não presta. Mas não tem".

A poetisa estende as preocupações, também, ao próprio António Ferro, de quem apresenta desconfiança. "Não sei bem porquê, tenho palpite de que vou encontrar nele uma resistência sorridente ao que pretendo". E o que pretendia Virgínia?: "que o teatro radiofónico seja dirigido, realizado e orientado unicamente por mim, como as orquestras o são pelos seus chefes respectivos (...). Só assim poderei voar com as minhas asas". E assim aconteceu. Salazar anuiu e a autora do livro de versos "Namorados" desenvolveu o teatro radiofónico da Emissora Nacional. Sob o pseudónimo Maria João do Vale.

Carta de Virgínia Victorino a Salazar
Como há dias, quando tive o gosto de estar em sua casa, V. Exª me disse que, ocorrendo-me qualquer outro além dos nomes do Cap. Henrique Galvão e do Dr. Luiz Vieira de Castro gostaria de que eu lhe indicasse para Presidente da Direção da Emissora Nacional, venho, de acordo com a nossa conversa, alvitrar mais um, pois, segundo creio, reúne todas as condições necessárias. Trata-se do Cap. Álvaro Afonso dos Santos, rapaz muito digno, muito sério, com uma vasta cultura artística e de convicções políticas que não oferecem a mínima dúvida.
Apesar de militar, encontra-se na reserva, o que lhe permitiria dedicar ao cargo a atenção e a assistência que ele requere. E também primorosamente educado, tem excelente apresentação, fala várias línguas e não confunde Beethoven com Rui Coelho nem Camões com Mário Marques... Além destas qualidades tem ainda, repito, a de ser absolutamente fiel à situação, e estou convencida de que desempenharia o lugar a contento de V. Exª; mas devo dizer-lhe, Senhor Presidente, que, tal como acontece aos dois atraz referidos, ele ignora a indicação do seu nome para o cargo em que V. Exª deseja substituir o Senhor António Ferro, por não lhe consentirem os seus inúmeros afazeres consagrar à Emissora a assiduidade de que ela necessita.
É claro que me limito a indicar para aquele organismo um chefe que presinto bom, e faço-o tendo apenas o desejo de ajudar V. Exª a resolver um problema que, na verdade, carece de solução urgente; mas visto, como em tudo, já se vê, V. Exª decidirá com a sua inteligente lucidez. No entanto, creia, Senhor Presidente: aquilo preciso de arranjo! As injustiças sucedem-se, as prepotências, os favoritismos também. Não há mão segura, nem critério, nem orientação capazes de manter em quem trabalha, o entusiasmo indispensável. Campeia o mau gosto, a monotonia, acarinha-se a mediocridade, facilita-se a uns o que a outros se nega terminantemente.
Assim, reina entre os colaboradores e os próprios funcionários, um mal-estar e um desânimo lamentáveis sob todos os aspectos. Não entra neste desabafo qualquer nervosismo de mulher, mas, Senhor Presidente, na Emissora Nacional é preciso alguém que esteja, que sinta, que oiça, que acompanhe os que desejam servir e servem, não servindo melhor porque a incompreensão de alguns finge desconhecer e aniquila, portanto, o esforço de muitos. Quem dirige, na realidade, o Senhor Silva Dias, que terá, possivelmente, qualidades políticas. Mas essas não bastam para o organismo especial de que se trata. Estava certo que dirigisse, artisticamente, se para isso tivesse o comportamento e a cultura necessárias, o bom gosto bastante para distinguir, por si próprio, o que é bom do que não presta. Mas não tem.
V. Exª sabe que deve ser assim e por isso lhe falo com esta sinceridade.
Perdôe!
Ainda não procurei o sr. António Ferro. Ignoro se V. Exª já lhe tirá mostrado o seu interesse pelo meu caso e pela minha situação. Não sei bem porquê, tenho palpite de que vou encontrar nele uma resistência sorridente ao que pretendo: que o teatro radiofónico seja dirigido, realizado e orientado unicamente por mim, como as orquestras o são pelos seus chefes respectivos: Freitas Branco, Frederico de Freitas, Venceslau Pinto, etc. Só assim poderei voar com as minhas asas; mas como V. Exª generosamente me concede a sua simpatia me tem estimulado como ninguém, só em V. Exª confio e, se me der licença, pôl-o-ei ao facto do que se passar, para que, sendo preciso, V. Exª resolva em última instância.
Mil desculpas e mil agradecimentos, com as mais afectuosas lembranças da que se subscreve

De V. Exª
M.to Atª e obgª
Virgínia Victorino

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